Cinco Estados concentram 70% dos casos de dengue neste ano

Nas seis primeiras semanas do ano, mais de 70% dos casos de dengue registrados no país ficaram concentrados em cinco Estados. De acordo com dados do Ministério da Saúde, Rondônia, Acre, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás registraram 77.117 notificações das 108.640 confirmadas em todo o país. Em 2009, no mesmo período, foram registrados 51.873 casos de dengue em todo o Brasil.

O Gerente de Prevenção e Controle de Doenças e Desenvolvimento Sustentável da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), Enrique Gil, reconheceu em entrevista ao Jornal Valor Econômico,  que entre os países latino-americanos, o Brasil é o que mais investe em políticas de prevenção a doenças tropicais, mas talvez esteja na falta de saneamento a explicação para a alta incidência da doença. "O país também sofre com problemas de saneamento. Em cidades, por exemplo, onde não há regularidade na distribuição de água, as pessoas acabam armazenando-a em galões, o que propicia a reprodução do mosquito."

Apenas cinco municípios - Campo Grande (MS), Goiânia (GO), Aparecida de Goiânia (GO), Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO) apresentaram mais de 30% dos casos de dengue, mostrando que o agravamento da doença está se dando no Centro-Oeste, inclusive no Distrito Federal. Desses municípios, os últimos quatro estão em estado de alerta. As autoridades ainda não têm explicações para o agravamento da doença.

Apesar de não estar em estado de alerta, o Distrito Federal apresenta, até o momento, os piores números dos últimos oito anos, com hospitais lotados e a população preocupada. Segundo dados da Secretaria de Saúde, foram confirmados 1.541 casos e outros 3.681 estão sob investigação (em 2009, esses números eram respectivamente, 111 e 520). Na prática, um aumento de mais de 1.300% no número de casos confirmados.

Para o subsecretário de Vigilância à Saúde do DF, Allan Kardec Rezende Napoli, o aumento no número de casos de dengue no país sintetiza uma falha do poder público e da sociedade na implantação de políticas de combate ao mosquito. "Alguém deixou de fazer o dever de casa", disse.

O subsecretário reconhece que há uma conjunção de fatores que explicam o aumento dos casos de dengue. O forte calor, combinado com as chuvas, favorece a proliferação do mosquito "aedes egypti". Mas isso ocorreu em todo o país. Ele aponta também falhas na limpeza urbana - lixo, entulhos e água parada em vias pública também tornam-se criadouros de larvas do mosquito. E o desleixo da população, que não toma medidas práticas para combater a dengue.

Sob a óptica dos profissionais da Saúde, Napoli aponta falhas na política epidemiológica existente no país. "É uma área na qual devemos trabalhar todos os dias. Não adianta pensar nisso apenas nos períodos de crise." E faz uma pergunta: "Se daqui a dois meses os casos diminuírem, poderemos dizer que nossos problemas estarão resolvidos?".

O coordenador do programa nacional de combate à dengue do Ministério da Saúde, Giovanini Coelho, ainda acha cedo para traçar cenários pessimistas quanto aos números da doença no país. Ele lembrou que o período de contágio vai até junho. E que grandes centros urbanos, tradicionais focos de transmissão da doença, estão fora dos casos confirmados este ano. "Sempre tivemos problemas sérios na região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo. Lá, os casos registrados até o momento são poucos", afirmou Coelho.

Dados do Ministério da Saúde mostram, de fato, que, em 2009, o Rio de Janeiro registrou 3,1 mil casos da doença nas seis primeiras semanas do ano. No mesmo período deste ano foram confirmados 636. Com isso, ele acha improvável que se repitam os anos de 2002 e 2008, que entraram para a história como os mais dramáticos em contaminação de dengue no país. "O número de óbitos também está mais baixo."

O governo, porém, está sem respostas para a expansão da incidência da doença no Centro-Oeste. Coelho reconhece que tratar da dengue não é tão simples como combater o H1N1 (gripe suína), por exemplo, uma doença para a qual será iniciada agora uma campanha de vacinação pública. "Como não temos uma vacina, o esforço para tratar da dengue é muito maior e envolve conscientização da população, políticas de saneamento, de coleta de lixo e tratamento de água e um envolvimento direto de técnicos da saúde", diz Coelho.

 

Fonte:

Jornal Valor Econômico

Paulo de Tarso Lyra