Em novembro de 2014 o Nature Publishing Group (NPG), editora que publica Nature e outros 68 periódicos, lançou o Nature Index. A plataforma é uma base de dados das contribuições de pesquisadores de todo o mundo na forma de artigos publicados em 68 periódicos de excelência — publicados pelo NPG e por outras editoras. Os periódicos foram escolhidos por um painel de pesquisadores independentes das áreas de ciências físicas e ciências da vida, e passaram por validação por meio de uma pesquisa online realizada com 100.000 cientistas produtivos em todo o mundo. As escolhas refletem a percepção dos periódicos pelos pesquisadores e não levam em conta indicadores baseados em citações, como o fator de impacto.

A plataforma, na versão de testes beta, permite a pesquisadores e instituições realizar uma autoavaliação de seu desempenho e contribuir construtivamente com comentários e sugestões para melhorar o índice. O objetivo do índice é prover indicadores de produtividade por meio da análise de afiliação dos autores e contribuição entre países e instituições de pesquisa. O Nature Index, que mostra os resultados em uma janela de 12 meses e conta com atualização mensal, pode ser consultado em acesso aberto sob licença Creative Commons não comercial. Está disponível uma lista de tabelas relacionando, por exemplo, os 100 países mais produtivos, 200 instituições melhor ranqueadas e as 50 instituições top por área (ciências da vida e ciências físicas), além de outras.

As grandezas utilizadas pelo índice para ranquear países e instituições são:

Contagem de artigos (CA) — Um ponto é atribuído a um país ou instituição se um ou mais autores de um artigo pertencerem à esta instituição ou país, independentemente de quantos coautores houver não pertencentes à instituição ou país.

Contagem fracionada (CF) — A contagem fracionada considera o percentual de autores desta instituição ou país e o número de instituições afiliadas por artigo, assumindo que todos os autores tiveram igual contribuição no artigo. Quando todos os autores forem da mesma instituição (ou país) que está sendo avaliado, o CF é igual a 1,0.

Contagem fracionada ponderada (CFP) — Trata-se de uma versão modificada do CF, em que a contagem fracionada para artigos periódicos especializados de astronomia e astrofísica foi ponderada para baixo. Estes periódicos abrangem uma proporção muito maior do total da produção publicação nestas áreas do que qualquer outro domínio coberto pelo Nature Index. O CFP permite ordenar instituições e países de modo a não dar ênfase indevida a estas áreas. A ponderação é obtida multiplicando-se a contagem fraccionada a partir destes periódicos de astronomia e astrofísicas por um fator de 0,2. Esta ponderação para baixo é proporcional à aproximação do nível ao qual artigos de astronomia e astrofísica estão sobre representados em comparação com a publicação total de outros domínios abrangidos pelo índice.

A América Latina e o Caribe no Nature Index

Na lista dos 100 países mais produtivos do Nature Index ordenada pelo CFP figuram 13 países da AL&C, o Brasil, na 23° posição, seguido da Argentina (31° posição), México (34°), Chile (36°), Colômbia (55°), Panamá (60°), Uruguai (62°), Cuba (63°), Peru (65°), Equador (77°), Venezuela (80°), Costa Rica (81°), e Barbados (90°).  Estes dados referem-se a artigos publicados em 2013 e, na comparação com o índice de 2012, o Brasil mostrou crescimento de 17%. Da mesma forma, Argentina, México, Chile, Colômbia e Barbados tiveram crescimento no mesmo período, sendo que os demais países acusaram queda no CFP em 2013 comparado a 2012.

De acordo com análise da Nature, pesquisadores da AL&C estão buscando a excelência e aumentando a colaboração internacional, enquanto contam com recursos relativamente limitados. Os dados globais da região são CA: 1.968 artigos, CF: 804, e CFP: 530. Mais de três quartos desta produção vem de Brasil, Argentina e México, países que concentram 92% dos investimentos em ciência e tecnologia disponíveis na AL&C. Apesar do crescimento continuado da produção dos países melhor situados no ranking, a região está longe de se tornar um importante polo científico no cenário mundial. Na análise do cientometrista e coordenador da Ricyt (base de dados sobre produção científica da AL&C), Rodolfo Barrere, os investimentos somados com ciência e tecnologia na região situam-se entre 2% e 3% do Produto Interno Bruto. O Brasil é o único país da região em que os investimentos superam 1% do PIB, com 1,2%, o que representa 70% dos investimentos da região. A Argentina vem a seguir, com 0,65%, seguido do México (0,45%) e do Chile (0,44%).

A eficiência dos pesquisadores de cada país pode ser aferida pela relação CFP e o número de pesquisadores. O Chile lidera este indicador na região, devido ao grande número de artigos produzidos por colaborações com o Observatório Astronômico Nacional. De fato, dois terços dos artigos do Chile no Nature Index são na área de astronomia e astrofísica.

No Brasil, a Universidade de São Paulo (USP) se destaca das outras instituições na região quanto à contribuição no Nature Index e por seus números. A maior universidade da AL&C emprega 6 mil acadêmicos e tem ao redor de 100 mil alunos de graduação e pós-graduação. A instituição é financiada com recursos do governo do estado (5.5% do ICMS), além dos projetos de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Segundo o Pró-Reitor de pesquisa da USP, José Eduardo Krieger, o fluxo contínuo de financiamento nas instituições brasileiras (estaduais e federais) não favorece a meritocracia, ao contrário do que ocorre nos EUA. "No Brasil, um acadêmico que não consegue obter recursos para sua pesquisa ainda tem seu salário garantido".

Apesar disso, o Brasil ainda tem baixos níveis de colaboração internacional quando comparado com seus vizinhos México e Chile. Neste sentido, um programa denominado Ciência sem Fronteiras, cujo foco reside em enviar jovens graduandos e pós-graduandos ao exterior, visa aumentar esta colaboração.

O sistema de financiamento na Argentina é diferente do Brasil. Tipicamente, a Universidade de Buenos Aires (UBA) e muitas outras instituições do país não possuem estabilidade na carreira, de acordo com o Reitor da UBA, Alberto Barbieri. Cada pesquisador é avaliado a cada sete anos sobre sua produção científica, ensino e formação de pessoal.

O maior desafio na Argentina, entretanto, refere-se a captar financiamento para pesquisa e desenvolvimento. Em 2013, o governo lançou um programa para aumentar de 0.65% para 1.65% do Produto Interno Bruto a alíquota destinada à pesquisa por meio de parcerias público-privadas. Esta iniciativa pode ajudar a repatriar cientistas argentinos no exterior e aumentar a relação pesquisadores/população ativa no país, que já é o dobro daquela do Brasil.

A mais importante instituição de pesquisa do país é o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), cujo CFP é de 34 (um terço do CFP do país, que é 105). Assim como a instituição que aparece em terceiro lugar, a Universidad Nacional de la Plata, a produção científica da UBA e o Conicet tem sua fortaleza nas ciências físicas e astrofísica, temas altamente colaborativos.

 

Referências

Introducing the index. Nature 515, S52—S53 (13 November 2014) doi:10.1038/515S52a. Available from: http://www.nature.com/nature/journal/v515/n7526_supp/full/515S52a.html

Middle & South America. Nature 515, S91—S92 (13 November 2014) doi:10.1038/515S91a.

Available from: http://www.nature.com/nature/journal/v515/n7526_supp/full/515S91a.html