Mapa de Evidências é um método emergente de tradução do conhecimento que busca sintetizar, identificar, descrever e caracterizar a evidência científica que existe para uma determinada temática ou condição de saúde. A tradução do conhecimento é uma das estratégias que contribui para estreitar a histórica lacuna que existe entre o conhecimento científico disponível e a adoção deste conhecimento pelos sistemas e serviços de saúde em todos os níveis.

Recentemente, a BIREME adotou e adaptou esta metodologia para sistematizar e facilitar o acesso às evidências disponíveis sobre aplicabilidade clínica das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS) bem como identificar as lacunas no conhecimento nesta área. Um dos mapas sistematizou a evidência disponível a partir de revisões e estudos clínicos randomizados sobre aplicação de algumas práticas integrativas no manejo clínico dos sintomas da COVID-19, para melhora da imunidade e para saúde mental em condições de isolamento social e traumas. Este mapa foi base da recomendação do Conselho Nacional de Saúde ao Ministério da Saúde, aos Conselhos Estaduais, do Distrito Federal e Municipais de Saúde, no sentido de ampla divulgação aos gestores, trabalhadores e usuários das evidências referentes às PICS neste momento de pandemia da COVID-19.

Construindo Mapas de Evidências

Nos Mapas de Evidência os estudos selecionados são apresentados em uma estrutura de intervenções avaliadas versus resultados ou desfechos medidos, destacando graficamente as lacunas onde existem poucos ou nenhum estudo e onde há uma concentração deles.

A motivação deste desenvolvimento foi a cooperação estabelecida entre a OPAS/OMS, por meio da BIREME, e o Ministério da Saúde (MS) do Brasil, por meio da Coordenação Nacional das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS), com a colaboração do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIn), com o objetivo de sistematizar e facilitar o acesso às evidências disponíveis sobre aplicabilidade clínica das PICS incluídas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC), bem como identificar as lacunas no conhecimento. E, por consequência, apoiar os profissionais de saúde, tomadores de decisão e pesquisadores na construção de ações de saúde baseadas em evidências.

A primeira fase do projeto funcionou como prova de conceito para a produção de nove Mapas de Evidências[1]: Acupuntura, Auriculoterapia, Fitoterapia, Meditação, Ozônioterapia Oral, Práticas Tradicionais Chinesas, Reflexologia, Shantala e Yoga. Os desfechos foram distribuídos em grupos: Efeitos Físicos e Metabólicos – Dor, Doenças Crônicas, Doenças Agudas e Câncer; Vitalidade, Bem-Estar e Qualidade de Vida; Saúde Mental; Sócio Ambiental e Espiritualidade; e Gestão. Para cada prática foi constituído um grupo de trabalho com pesquisadores que realizou a busca sistemática de documentos nas principais bases de dados, seleção dos estudos de acordo com os critérios pré-estabelecidos e subsequente caracterização da evidência. Os mapas estão disponíveis em página da BVS MTCI.

mapa evidencias por

À raiz desta experiência e ante a pandemia da COVID-19, o CABSIn, a Rede Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas das Américas (Rede MTCI Américas) e BIREME uniram esforços e convocaram pesquisadores voluntários da América Latina para sistematizar as evidências científicas sobre possíveis contribuições das MTCI para a COVID-19, que foram agrupadas nos seguintes resultados: Melhora da imunidade e efeito antiviral em vírus respiratórios; Tratamento complementar dos sintomas de infecções respiratórias; e Contribuições para a saúde mental. O mapa inclui 126 estudos de revisão e estudos clínicos controlados, distribuídos em uma matriz com 62 intervenções com: plantas medicinais/ fitoterapia; medicina tradicional chinesa; terapias mente-corpo; probióticos e suplementos nutricionais; e medicamentos dinamizados, homeopáticos e antroposóficos. Este mapa está disponível em nos idiomas português, inglês e espanhol.

Além dos mapas na área das MTCI, a Metodologia foi aplicada em uma revisão sobre Estratégias para Reduzir as Desigualdades em Saúde e em fase de elaboração em duas outras revisões: Aplicação clínica do Laser Terapia na Saúde Bucal, e Antibioticoprofilaxia para Procedimentos Cirúrgicos.

Segundo Daniel Amado, coordenador da área de PICS no MS, “os mapas de evidência já estão sendo utilizados pela Coordenação Nacional e está sendo estruturante para a política pública”.

Sobre a Metodologia Mapas de Evidências

A produção dos Mapas de Evidência é realizada em duas macroetapas: 1) busca, seleção e caracterização das evidências e 2) processamento, tratamento e visualização de dados, resultando na publicação do Mapa na internet.

A primeira etapa tem como resultado a construção de uma planilha de dados, utilizando a ferramenta Microsoft Excel, que registra a caracterização das evidências por intervenção e desfecho, por meio de parâmetros de nível de confiança, desenho dos estudos, tipo de revisão, população, efeitos e país/região como foco.

A segunda etapa realiza o processamento da planilha de caracterização das evidências, resultando em uma fonte de dados estandardizada que é utilizada na elaboração e publicação online do Mapa de Evidências, utilizando as ferramentas Tableau Prep, Tableau Desktop e Tableau Public.

A metodologia criada na primeira fase do projeto, a partir da adoção e adaptação do modelo Evidence Gap Map da 3ie, teve como objetivo flexibilizar e simplificar o processo e uso da tecnologia para o registro da caracterização das evidências. Após a publicação destes 10 mapas, tanto a metodologia desenvolvida como as ferramentas adotadas serão revisadas para aperfeiçoamento e escalabilidade da produção e publicação dos Mapas de Evidência.

 

[1] Mapas de Evidências sobre aplicação clínica das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Boletim BIREME n° 37. Disponível em: http://boletin.bireme.org/pt/2019/10/26/mapas-de-evidencias-sobre-aplicacao-clinica-das-praticas-integrativas-e-complementares-em-saude/