No mês passado, o prefeito de Rio Branco, no Acre, decretou estado de calamidade pública na cidade em função dos alagamentos que cobriram o município, naquela que foi considerada pelo governo local como a maior cheia da história do estado.  Ao todo, 20 bilhões de metros cúbicos de chuva caíram na bacia do Rio Acre em menos de dois meses. Mais de 85 mil pessoas foram atingidas.¹ As chuvas foram tão intensas que o rio ultrapassou a cheia histórica de 1997, quando atingiu a marca de 17,66 metros. 

Mais de 53 bairros da capital foram alagados, totalizando uma área de 5 mil hectares. Três pontes foram interditadas, e a população sofreu com o desabastecimento de água e energia. Diante deste cenário calamitoso, os médicos cubanos do Programa Mais Médicos se somaram à rede de atendimento de emergência, tanto nos refúgios habilitados como nas unidades básicas de saúde que tiveram condições de seguir em funcionamento. Foram abertos cinco refúgios para as vítimas das chuvas, que abrigaram entre 5 e 6 mil pessoas, totalizando aproximadamente 1300 famílias.

Nos refúgios trabalharam os médicos cubanos dos municípios mais afetados: Assis Brasil (3 médicos), Brasileia (8 médicos), Xapuri (3 médicos), Rio Branco (15 médicos) e Epitaciolândia, onde estão três médicos cubanos.


Médica cubana atende em condições adversas

A médica cubana Belkis Caridad Baca Hernandez fez um relato emocionado sobre a o trabalho durante a enchente no Acre. No auge das chuvas, Belkis, que além de clínica geral é cirurgiã oftalmologista, manteve o atendimento no posto de saúde do bairro Taquari até as 19h, e só parou porque não havia mais energia elétrica - o fornecimento foi interrompido pela Eletrobrás no bairro inteiro como medida de segurança.

“Não saio do Taquari”, disse a médica. “Estas pessoas são meus amigos, são como minha família”.

A população do Acre recebeu, desde o início do Programa Mais Médicos, 125médicos cubanos que estão distribuídos por todo o estado. Selecionada para Rio Branco, Belkis se encantou pela região e pelas pessoas – e a comunidade se encantou por ela. “É uma boa pessoa, todo mundo aqui gosta dela. Ela é a médica da minha mãe e sempre está lá em casa vendo como minha mãe está”, disse Maria Xavier do Nascimento. Mas não é só a mãe de Maria que se consulta com a médica cubana: o filho dela, Railson Souza da Silva, de 7 anos, apresentava um quadro de febre muito alta e dor aguda no estômago, e foi levado pela mãe para ser examinado por Belkis. Depois da avaliação clínica, a médica cubana encaminhou Railson para a Unidade de Referência em Atenção Primária (URAP) Claudia Vitorino.

Esta não foi a primeira vez que Belkis enfrentou uma inundação destas proporções. Tão logo ela chegou ao Brasil, em 2014, teve que lidar com uma enchente, quando grande parte do Taquari, uma região pobre de Rio Branco, mais uma vez ficou debaixo d´água. Na unidade básica de saúde na Escola Dejanira Bezerra ela atendeu o motociclista Francisco Frazão, que estava à espera da avaliação de feridas decorrentes de um acidente de moto ocorrido cinco dias antes, na BR 364, quando um pneu estourou e o veículo ficou sem controle. Avaliado e feito o curativo, Frazão voltou para casa com a ajuda do sogro. “Quando fiquei sabendo que estavam atendendo aqui, logo vim para ver se tinha médico. Ainda bem que essa médica estava aqui, mesmo debaixo de chuva”, disse o motociclista.

Na sequência, depois de organizada a fila de candidatos a consulta médica, Belkis foi acionada para uma visita domiciliar e seguiu de barco até a casa de número 45, localizada em um pequeno e alagado beco do bairro. A mãe do menino Danilo Souza, Celiane Ferreira, foi quem indicou o caminho. Danilo nasceu com paralisia infantil e tem asma. Belkis o examinou, prescreveu antibiótico e outros medicamentos e voltou de barco para seguir o atendimento no posto.

A enfermeira Sulamita Guedes, assessora do secretário Oteniel Almeida, trabalha com a médica Belkis Hernandez ajudando-a nas consultas, no aviamento dos remédios e traduzindo certas palavras que ainda não são familiares à cubana, que em geral tem suas perguntas e recomendações bem compreendidas pelos pacientes.

Apesar de improvisada, a farmácia montada pela Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA) na Escola Dejanira Bezerra contempla a boa parte da medicação básica, com cerca de 100 itens. “O Mais Médicos é um programa muito importante para a população e é nestes momentos que se vê com mais clareza esse diferencial”, afirma Sulamita.



Com informações do jornal A Gazeta de Rio Branco


Referência

¹Valor Econômico. Acessado em: 14/04/2015