conferencia2016 curitiba genero24 de maio de 2015
– Especialistas em igualdade de gênero e promoção da saúde participaram nesta terça-feira (24) de um simpósio sobre o tema, durante a 22ª Conferência Mundial de Promoção da Saúde, em Curitiba (PR). O debate foi moderado pelo Representante da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, Joaquín Molina, e contou com a presença de profissionais de saúde e da ONU Mulheres.

De acordo com a coordenadora da Unidade Técnica de Gênero, Família e Curso de Vida da OPAS/OMS, Haydee Padilla, as mulheres pagam de 16% a 40% a mais por assistência à saúde, proporcionam mais cuidados não remunerados que os homens (como assistência a familiares idosos) e têm mais necessidade de saúde não atendidas, no continente americano.

Segundo ela, embora ainda haja muito a ser feito, os países das Américas conseguiram importantes avanços. “Em uma pesquisa recente da OPAS/OMS, verificamos que 19 de 32 Estados adotaram políticas para gênero e saúde, 88% têm dados desagregados por sexo e idade, 53% têm dados desagregados por etnicidade e 56% comprometeram recursos para aumentar capacidades em gênero e saúde. Com informações detalhadas, somos mais assertivos no que fazemos e podemos evidenciar ante os tomadores de decisões quais os problemas e onde utilizar melhor os recursos”, afirmou.

Nesse sentido, a Representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, apresentou a pesquisa “Mais igualdade para as mulheres brasileiras: caminhos de transformação econômica e social”, com informações sobre renda, trabalho, saúde, violência, entre outros. “Mais da metade da população brasileira é formada por mulheres e negros. Por isso, precisamos falar de gênero e raça. Precisamos de ações afirmativas, fazer coisas especiais para as populações que estão ficando para trás, porque temos que caminhar todos juntos”, ressaltou.

O pesquisador e professor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Marcos Nascimento afirmou que, quando se trata de gênero e masculinidade, não se podem esquecer questões como raça, etnia, pobreza e orientação sexual. “Não estamos falando apenas dos homens heterossexuais, mas de todos os homens”. Segundo ele, é necessário que a população masculina participe mais ativamente de temas como saúde reprodutiva. “Muitos homens não se preocupam com isso, como se reprodução fosse uma tarefa apenas da mulher”. Nascimento citou entre os momentos mais significativos para essa discussão a Conferência Internacional sobre Homens Jovens e Saúde, realizada em 2002. “A OPAS teve um papel preponderante naquele momento em relação à saúde dos adolescentes”, lembrou.

Para o psicólogo e ex-coordenador da Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem Eduardo Schwarz, o desafio de trabalhar com gênero é integrar o modelo biomédico com o bio-psico-social. “Cada homem é um universo e está dentro de um coletivo. Não estou falando só do homem branco, heterossexual, de classe média. Estou falando também de negros, das travestis, de pescadores, índios”, enumerou.

Já a professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Uberlândia Flávia Teixeira abordou a necessidade de uma linha de cuidado para a população trans e relatou a experiência que teve no Ambulatório Amélio Marques. “Para garantir o acesso aos serviços de saúde para pessoas trans, é ncessário que profissionais e serviços de saúde sejam, concomitantemente, competentes e respeitosos”. Segundo ela, o preconceito costuma fazer essa população adiar ao máximo o uso dos serviços de saúde e, assim, acessar mais os serviços de emergência. “É preciso capacitar os serviços de emergência porque é muitas vezes a porta de entrada delas e, em muitas situações, a única porta de entrada”.

Flávia também ressaltou a necessidade de não reduzir o/a transexual como “presa no corpo errado”. “Não se deve antecipar a demanda, deixe que a pessoa informe a queixa”. Também afirmou que as instalações físicas das unidades de saúde precisam estar adequadas para legitimar o reconhecimento dessa população nos serviços de saúde. “É o caso do acesso ao banheiro, da presença de cartazes, da conscientização de todos os profissionais, começando pelos responsáveis pela segurança e recepção. Com medidas como essas, você acaba com aquele sentimento de improviso e favor”, avalia.

Saúde suplementar

Na mesa “Promoção de Políticas Nacionais de Saúde em Ação”, realizada no mesmo dia, um dos palestrantes foi Alberto José Nituma Ogata, coordenador do Laboratório de Inovação em Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos em Saúde Suplementar da OPAS/OMS em parceria com a ANS, que fez uma exposição desta iniciativa.

O Laboratório de Inovação visa identi?car e estimular a produção de soluções inovadoras na Saúde Suplementar, com foco nas condições crônicas e nas ações de promoção da saúde e prevenção de riscos e doenças. “No Laboratório de Inovação, nós encontramos um problema, pesquisamos inovações e então partimos para a adoção de um novo sistema, em áreas como saúde mental, câncer, saúde ocupacional, entre outros. A intenção é buscar soluções inovadoras e conectar com o sistema de saúde em busca de efetividade”, afirmou o coordenador.

Ogata destacou que um dos imperativos nos dias de hoje é buscar soluções que integrem o sistema de saúde e a saúde ocupacional no ambiente laboral. “Ignorar o lugar do trabalho é negligenciar um espaço privilegiado de promoção da saúde”. Ogata ressaltou que a maioria dos programas, quando realizada no ambiente laboral, adota um enfoque medicinal, e não aplica iniciativas multiprofissionais.

O trabalho do Laboratório de Inovação resultou na publicação: “Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças na Saúde Suplementar Brasileira: Resultados do Laboratório de Inovação”, que é um guia para avançar em ações e iniciativas nesta área.