mais medicos hanseniase216 de setembro de 2016 – Fundado em 1989, logo após a Assembleia Constituinte, o município de Palmas, no Tocantins, apresentava a terceira maior cobertura do país da Estratégia de Saúde da Família em 2004. Com o Programa Mais Médicos, a cidade saiu de 64% para 100% de cobertura, segundo o secretário executivo de saúde do município, Whisllay Maciel Bastos. “A cidade tem 275 mil habitantes e conta com uma rede de serviços de saúde com 31 unidades. Com a chegada do Programa, conseguimos alcançar a totalidade da cobertura em saúde, o que aconteceu no mês passado”.

De acordo com o secretário municipal de saúde, Nésio Fernandes de Medeiros Júnior, o marco conceitual e jurídico do programa ofereceu um arcabouço teórico e prático que foi de encontro às ações que estavam sendo construídas no município. “Eu sou médico de formação e trabalhei no Programa Mais Médicos aqui em Palmas antes de assumir este posto. Então eu vi, na ponta, como essa iniciativa é importante e como ela ajudou o município a expandir a cobertura e como poderia ajudar em outras frentes”.

O secretário destaca duas iniciativas principais, ambas interligadas. A primeira foi a criação da Escola de Saúde Pública, que visa a integração entre ensino, serviço e comunidade – e que conta com um plano municipal de educação permanente em Saúde.

“A Escola de Saúde Pública e o Programa Mais Médicos têm uma junção na sua essência. A experiência do programa Mais Médicos aqui no município de Palmas trouxe para a gente uma inspiração. Em como poder ousar e ter um olhar diferenciado para a formação em saúde. Trabalhar com os profissionais de saúde para que eles possam refletir suas práticas e assim mudar a realidade dos seus pacientes é a forma como a educação permanente trabalha”, explica Juliana Ramos, coordenadora da Escola.mais medicos hanseniase3

A outra iniciativa destacada pelo secretário, em consequência, é o projeto Palmas Livre de Hanseníase, iniciado em maio deste ano e que treina e capacita in loco os profissionais da atenção primária do município para que eles sejam capazes de diagnosticar e tratar os pacientes. Entre eles, todos os profissionais do Programa Mais Médicos.

“A meta é empoderar o profissional de saúde em hanseníase para que ele perca o medo, o preconceito e tenha segurança para diagnosticar na atenção primária, e não encaminhar para um especialista para não afunilar o sistema. E é também empoderar o usuário do SUS que vive em regiões endêmicas, para que ele se informe e procure o atendimento a que tem direito”, conta Jaison Antônio Barreto, médico dermatologista, chefe do Instituto de Epidemiologia do Instituto Lauro de Souza Lima, centro colaborador da OPAS/OMS no Brasil e professor responsável pelo projeto.

De acordo com o Ministério da Saúde brasileiro, foram diagnosticados 28 mil novos casos no Brasil em 2015, e Palmas é considerada uma região endêmica. Mas hanseníase tem cura. “A hanseníase é uma doença de contato continuado. Não é por estar no mesmo local que uma pessoa durante alguns minutos que vai haver contágio. É necessário conviver com a pessoa doente por um período de tempo. Por isso, quando uma pessoa é diagnosticada com hanseníase, é necessário avaliar os outros integrantes da família”, explica o professor.

Jeamile Alvarez Pereira, médica cubana do Programa Mais Médicos, está passando pelos ensinamentos de Barreto. Ela já diagnosticou sete casos de hanseníase: “Nos que eu tenho diagnosticado, os pacientes aceitaram a doença e estão colaborando com o tratamento. Ainda tem preconceito, mas não como era antes. Isso porque eles sabem que tem tratamento, que é uma doença crônica, mas que tem cura”.

No paciente de hanseníase, qualquer infecção complica o tratamento, pois afeta a imunidade. Por isto a abordagem tem que ser integral, em um tratamento completo, multidisciplinar e transdisciplinar.

“O Programa Mais Médicos é de fundamental importância uma vez que é uma forma de o médico chegar próximo da casa desse paciente. O projeto Palmas Livre da Hanseníase é uma iniciativa pelo fim da ignorância, do preconceito e pela eliminação da hanseníase no Brasil. Uma doença negligenciada, escondida, e que por ser renegada acomete muitas pessoas nas regiões mais pobres do país, e também médicos, enfermeiros e profissionais de saúde”, diz o professor.

Hanseníase
A hanseníase é uma doença crônica infecciosa que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa do trato respiratório superior e os olhos. Essa enfermidade tem cura e o tratamento prestado em seu estágio inicial evita deficiências.

O controle da hanseníase tem melhorado significantemente devido às campanhas nacionais e subnacionais na maioria dos países endêmicos. A integração dos serviços básicos de hanseníase aos serviços de saúde gerais tem feito o diagnóstico e tratamento da doença mais acessível.

De acordo com números oficiais de 121 países de cinco regiões da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de novos casos registrados em 2014 foi de 213.899. Em 2013, foram notificados 215.656 novos casos e, em 2012, 232.857.

Mais Médicos

mais medicos hanseniaseO Mais Médicos foi criado em 2013 pelo Governo Federal brasileiro, com o objetivo de suprir a carência desses profissionais nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades. A Representação da OPAS/OMS no Brasil colabora com a iniciativa intermediando a vinda de médicos de Cuba para atuar em unidades de saúde do país. Com o Mais Médicos, foi possível preencher 18.240 vagas em 4.058 municípios brasileiros e 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Dessas, 11.429 foram ocupadas pelos profissionais cubanos.

Conforme informações do Ministério da Saúde brasileiro, após a implementação do programa, 700 municípios localizados em áreas remotas do Brasil passaram a ter pela primeira vez na história médico residente para atendimento na atenção básica. Os médicos cubanos também estão entre os trabalhadores que atuam na prevenção e diagnóstico do vírus zika e no acompanhamento de crianças com microcefalia.

Além disso, uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) – com aproximadamente 14 mil entrevistas – apresentou avaliações positivas da população sobre o desempenho dos profissionais brasileiros e estrangeiros que integram a iniciativa.

Do total de entrevistados, 85% disseram que a qualidade do atendimento médico ficou melhor ou muito melhor após a chegada dos profissionais do programa. Além disso, 87% dos usuários apontaram que a atenção do profissional durante a consulta melhorou e 82% afirmaram que as consultas passaram a resolver melhor os seus problemas de saúde.