00.fa photostory6 de setembro de 2017 – O Ministério da Saúde do Brasil declarou nesta quarta-feira (6) o fim do surto de febre amarela. O último caso foi registrado em junho deste ano. O encerramento do surto se deu pelo fim da sazonalidade da doença e pelas ações de vigilância e imunização, que contaram com a colaboração da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS).

O organismo internacional deu amplo suporte ao governo do Brasil e aos estados na resposta ao surto de febre amarela, desde o envio de doses de vacinas contra a doença e a divulgação de recomendações baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis até o trabalho em campo, juntamente com as autoridades nacionais e locais. As equipes da OPAS/OMS atuaram no controle de mosquitos Aedes para minimizar o risco de transmissão urbana da doença, na análise detalhada de dados para subsidiar as ações estratégicas, na capacitação de profissionais e na pesquisa epidemiológica com pacientes infectados ou com suspeita de infeção.

Um exemplo é o estado do Rio de Janeiro, onde especialistas em imunizações da OPAS/OMS trabalharam com as autoridades locais para estruturar o plano de combate ao surto de febre amarela na região.

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Em um encontro de trabalho em abril, o subsecretário de Vigilância em Saúde do estado, Alexandre Chieppe, destacou que o reforço no plano de vacinação contra a febre amarela começou no início do ano, principalmente nos municípios fronteiriços aos estados de Espírito Santo e Minas Gerais, que já contavam com casos da doença. “Inicialmente concentramos esforços em quatorze municípios de fronteira e, progressivamente, fomos ampliando a vacinação para todo o estado”.

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O Brasil adotou, em abril deste ano, a dose única de vacina contra a febre amarela, atendendo às recomendações da OPAS/OMS. Em visita ao município de Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro, a consultora de Imunizações da OPAS/OMS Samia Samad acompanhou a vacinação dos moradores da cidade, como o adolescente João Pedro Ferreira do Nascimento, 15 anos. Ele estava se vacinando porque iria visitar o pai no município de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Nosso trabalho na área de imunizações foi apoiar as coordenações municipais e estaduais para avaliar a situação vacinal. Ou seja, quem já se vacinou, quem falta vacinar, onde estão essas pessoas, que estratégias devem ser criadas para buscar os que não se vacinaram. Para isso, nós agilizamos a contratação de especialistas na área de imunização, registro de dados e investigação de eventos adversos. Esses profissionais que nós mobilizamos se somaram às equipes dos estados e municípios. Com isso, tivemos mais gente qualificada trabalhando no controle da febre amarela”, explicou Samia.

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A OPAS/OMS esteve também no Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, Minas Gerais, para acompanhar a evolução do quadro da epidemia de febre amarela no estado. O hospital é um centro de referência para o tratamento, a pesquisa e o monitoramento dessa e de outras doenças infecto contagiosas tropicais no estado.

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De acordo com o diretor técnico do Hospital Eduardo de Menezes, Dario Brock Ramalho, a epidemia de febre amarela que aconteceu este ano foi algo que não se via há muito tempo no país. “O surto em Minas Gerais aconteceu em uma região do tamanho do estado de Pernambuco, com três polos principais. O Sistema Único de Saúde (SUS) local ficou completamente abarrotado, incapaz de responder às necessidades, e começamos a tentar trazer pacientes para cá”.

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Em visita ao local, Matheus Cerroni, consultor da OPAS/OMS para Regulamento Sanitário Internacional e Doenças Emergentes, conversou com o lavrador Marlúcio Mendes de Jesus, 34 anos. Morador de Imbé de Minas, a aproximadamente 300 km de Belo Horizonte, ele começou a se sentir mal em janeiro deste ano. Teve muita febre, dor de cabeça, dor no corpo e vômitos. Ao buscar o posto de atendimento da cidade mais próxima, Caratinga, foi diagnosticado com suspeita de febre amarela. No dia seguinte, foi transferido para o Hospital Eduardo de Menezes. Marlúcio ficou nove dias internado, fez tratamento e passou a retornar ao local periodicamente para acompanhamento. “Eu nunca havia ouvido falar de febre amarela, nem da vacina. Mas também não costumo ir ao médico. A gente, que mora na roça, não se preocupa muito com a saúde, só quando vê que a coisa está séria mesmo. Agora, depois que eu tive febre amarela, estou me preocupando mais com a saúde. Todas as vacinas que tiver eu quero tomar!”, afirmou.

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Cerroni explica que o Brasil registrou surto de febre amarela em vários locais que não eram área de recomendação de vacinação. Por isso, a parceria com as autoridades locais foi importante. “Colaboramos com a montagem de comitês de emergência, como os de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, que são espaços onde profissionais de diversas áreas consolidam e analisam dados para subsidiar a tomada de decisões. No Hospital Eduardo de Menezes, a OPAS/OMS destacou um médico infectologista especializado em febre amarela assim que o surto foi deflagrado, para auxiliar no planejamento do combate à doença”, ressaltou Cerroni.

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Na Bahia, o consultor em Análise de Situação de Saúde da OPAS/OMS Juan Cortez-Escalante ministrou em agosto um curso sobre arbovirores para a equipe da Secretaria de Saúde do Estado. Foram utilizadas ferramentas para análise epidemiológica e sistemas de informação geográfica. “Estávamos ajudando a preparar o estado para a possível detecção de casos de febre amarela”, disse Cortez-Escalante.

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No Espírito Santo, um dos estados mais afetados, a OPAS/OMS ajudou na montagem de uma Sala de Situação. O espaço físico e virtual foi criado para que as informações fossem analisadas sistematicamente por um corpo técnico composto por especialistas fixos, como médicos epidemiologistas e infectologistas, enfermeiros e biólogos. A Organização também colaborou com a investigação de casos suspeitos e com os esforços para controle de vetores na região de Grande Vitória.

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O coordenador de Doenças Transmissíveis e Análise de Situação de Saúde da OPAS/OMS, Enrique Vázquez (na foto acima, de verde), destacou que em janeiro, logo no início do surto, a OPAS/OMS ativou rapidamente seu sistema de resposta a emergências para que a organização pudesse ter uma atuação mais ágil e eficaz. “Em seguida, criamos um comitê de emergência no Brasil articulado ao da sede da OPAS/OMS, em Washington D.C., para coordenar conjuntamente toda a nossa resposta à febre amarela, em parceria e articulação com as autoridades nacionais, estaduais e municipais”. Vázquez e o gerente de incidentes da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde para febre amarela, Sylvain Aldighieri (na foto acima, de azul), coordenaram as equipes da OPAS/OMS – respectivamente – em Brasília, no Brasil (escritório), e em Washington D.C., nos Estados Unidos (sede).

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Segundo Joaquín Molina, representante da OPAS/OMS no Brasil, embora o momento crítico tenha ficado para trás, é importante seguir com as ações de prevenção para que o cenário não se repita. “O surto no Brasil chamou atenção no mundo todo, pela magnitude que alcançou. Por isso, a Organização vem trabalhando muito ativamente com as autoridades nacionais, estaduais e municipais na resposta à febre amarela. Mobilizamos peritos internacionais e especialistas na área de laboratórios e vacinação para trabalharem intensamente nos territórios. A OPAS/OMS também contribuiu com mobilização de recursos, sobretudo para possibilitar a atuação diretamente em nível local”.

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Molina destaca que os profissionais cubanos do programa Mais Médicos, mobilizados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para trabalhar nas unidades básicas de saúde, também ajudaram a combater o surto. Nos últimos meses, desembarcaram no Brasil vários novos médicos do programa, que participaram de um treinamento antes de chegar ao país. O acolhimento começa em Cuba, onde os profissionais têm um mês de capacitação sobre o sistema de saúde brasileiro. Nesse processo, eles conhecem a incidência da febre amarela no país e os procedimentos estabelecidos pelo governo brasileiro para o cuidado da doença. Posteriormente, quando chega ao Brasil, o médico passa por outro acolhimento, já no município onde vai trabalhar, e em seguida toma conhecimento da realidade específica daquela região.

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Entre os médicos, está a cubana Daymarelis Domínguez. Após passar por três missões internacionais, na Guiné-Equatorial, Equador e Venezuela, ela foi enviada ao município de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. “Diante dessa doença, a vacinação é fundamental. E também há muitas ações que nós podemos ensinar aos pacientes para evitar a febre amarela, como se proteger da picada de mosquitos”, diz.

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Carlos Rosales, coordenador do Mais Médicos na OPAS/OMS, conta que os profissionais cubanos cooperados que estão há mais tempo no país e já estão incorporados aos serviços de saúdes se empenharam no combate à doença. “Nós fizemos uma enquete com os médicos cubanos trazidos ao Brasil pela OPAS e, do total de entrevistados, 99% responderam que realizaram atividades sobre a importância da vacinação. Isso demonstra que praticamente a totalidade dos profissionais cubanos participou muito ativamente do processo de controle do surto de febre amarela no Brasil”, afirmou Rosales.