As crescentes interações entre seres humanos, animais e o ambiente elevam o risco de transbordamento (spillover) de patógenos zoonóticos, que podem resultar em surtos com implicações locais e globais. A vigilância de zoonoses emergentes é um componente essencial para a detecção oportuna de patógenos com potencial epidêmico e pandêmico. Nesse contexto, os morcegos, como espécie reservatório de diversos patógenos zoonóticos, desempenham um papel central na interface entre a saúde animal e a saúde humana devido à sua proximidade com outros animais e humanos, e sua susceptibilidade às mudanças ambientais e climáticas. Essas características os tornam uma espécie-chave na compreensão e prevenção de eventos de transbordamento (spillover), assim como surtos de zoonoses que possam ter importância para a saúde pública. No Brasil, avanços têm sido realizados no fortalecimento das capacidades do sistema de saúde visando o aprimoramento da vigilância em saúde, como a implementação de abordagens complementares para a detecção e o monitoramento de eventos de importância em saúde pública, como a ampliação das estratégias de vigilância laboratorial, a implantação de vigilância sindrômica e o desenvolvimento de sistemas de inteligência epidêmica, coordenando também com outros setores, como o da saúde animal. Um projeto conduzido pela Divisão de Vigilância de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (DVZ), em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde/ Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), o Instituto Todos pela Saúde (ITpS) e outras instituições parceiras, testou a aplicação da metagenômica para identificar patógenos com potencial epidêmico e pandêmico em amostras de morcegos provenientes da vigilância da raiva. Utilizando protocolos estruturados e tecnologias de sequenciamento, o projeto aprimorou o conhecimento sobre o viroma da fauna de morcegos no município de São Paulo e identificou novas famílias virais com potencial zoonótico, ampliando o escopo da vigilância de patógenos em contextos urbanos. A experiência evidenciou o potencial do uso de amostras desses animais para o monitoramento de patógenos emergentes, reforçando a importância de avaliar sua viabilidade e pertinência em estratégias de vigilância ampliadas. Nesse contexto, a OPAS/OMS, em parceria com o ITpS e Ministério da Saúde do Brasil, realizou a Oficina Técnica sobre o Uso da Vigilância em Morcegos como Estratégia de Detecção de Patógenos com Potencial Epidêmico e Pandêmico, nos dias 10 e 11 de fevereiro de 2025, em Brasília. Realizada na abordagem de Uma Só Saúde, a oficina reuniu especialistas e profissionais das áreas de saúde pública, saúde animal e meio ambiente, além de técnicos da OPAS/OMS, envolvidos em atividades de vigilância e pesquisa sobre patógenos zoonóticos emergentes no Brasil. Foram debatidas a viabilidade técnica, operacional e estratégica da vigilância de vírus zoonóticos em morcegos, seu potencial para integrar sistemas existentes e os desafios e implicações relacionados à implementação, sustentabilidade e parâmetros de aplicabilidade em diferentes contextos como estratégia complementar de detecção precoce, com base na experiência da DVZ-SP. |