O Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, este ano destaca o tema, “Reconhecendo a parteria indígena: salvaguardando a vida e o bem-estar”. A mobilização internacional chama a atenção para o papel das parteiras indígenas como guardiãs de sistemas de conhecimentos, valores e práticas desenvolvidos e transmitidos ao longo de gerações.
As Nações Unidas reconhecem o papel da parteria indígena na conexão entre território, espiritualidade, comunidade e formas de vida, bem como sua contribuição para a continuidade dos conhecimentos, o fortalecimento da identidade cultural e o cuidado comunitário. Essa prática, no entanto, ainda enfrenta barreiras estruturais e discriminação, além de reconhecimento insuficiente nos sistemas formais de saúde, com impactos sobre o acesso das mulheres indígenas a uma atenção materna culturalmente apropriada.
Nesse contexto, outras iniciativas da BIREME/OPAS/OMS contribuem para organizar e ampliar o acesso à informação, preservar memórias e dar visibilidade aos saberes e às experiências dos povos indígenas. Entre elas estão a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) dos Povos Indígenas, a Coleção “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós”, preservada pelo Memorial Digital da Pandemia de COVID-19, e a página temática sobre parteria tradicional nas Américas, disponível na Biblioteca Global de Medicinas Tradicionais da Organização Mundial da Saúde.
BVS dos Povos Indígenas reúne mais de 14 mil registros
Desenvolvida pela BIREME/OPAS/OMS com a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde do Brasil, a Biblioteca Virtual em Saúde dos Povos Indígenas reúne e organiza, em um único espaço, fontes de informação, documentos e recursos voltados à saúde dos povos indígenas.
Estruturada tendo como referência o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), a BVS busca facilitar o acesso ao conhecimento produzido nesse contexto e dar visibilidade à diversidade de informações relacionadas à saúde indígena. O portal conta com páginas dedicadas aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e permite realizar buscas específicas por DSEI, povo indígena e controle social, aproximando a organização da informação da própria estrutura e dos atores do SasiSUS.
Atualmente, a BVS reúne oito bases de dados, além da Memória SasiSUS, somando mais de 14.250 registros. Desenvolvida para reunir e preservar a memória institucional e técnica do Subsistema, a Memória SasiSUS já conta com mais de 700 registros sobre a saúde indígena no contexto do SasiSUS. Ademais, o portal amplia as possibilidades de acesso por meio de diferentes recursos e fontes de informação, incluindo legislação, recursos de internet, eventos e notícias relacionados à saúde dos povos indígenas.
Outro destaque são as Vitrines do Conhecimento, que organizam e apresentam conteúdos selecionados sobre temas prioritários. Duas já estão disponíveis: Medicinas Indígenas no Brasil e Emergência na Terra Indígena Yanomami. A BVS também disponibiliza uma Linha do Tempo do SasiSUS, que apresenta marcos históricos relacionados à construção e ao desenvolvimento da saúde indígena no Brasil desde 1910, permitindo acompanhar mais de um século dessa trajetória.
A iniciativa segue em permanente desenvolvimento. Novos conteúdos continuam sendo incorporados às fontes de informação e novos produtos estão em preparação para serem disponibilizados ainda em 2026, ampliando os caminhos de acesso, organização, preservação e disseminação do conhecimento sobre a saúde dos povos indígenas.
Com esse conjunto de fontes e recursos, a BVS apoia profissionais, gestores, pesquisadores e demais atores envolvidos com o SasiSUS, contribuindo para a preservação da memória, o acesso à informação e a visibilidade do conhecimento produzido no âmbito da saúde indígena.
“Fala Parente!” preserva vozes indígenas sobre a pandemia
A preservação das experiências e das vozes indígenas também está presente no Memorial Digital da Pandemia de COVID-19, iniciativa do Ministério da Saúde do Brasil, coordenada pelo Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), com a OPAS/OMS, por meio da BIREME, e em colaboração com o Centro de Humanidades Digitais da Universidade Estadual de Campinas (CHD/Unicamp).
A coleção “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós” reúne 155 documentos digitais relacionados às experiências da pandemia vividas por lideranças, profissionais de enfermagem, estudantes, professores, pessoas idosas e jovens dos povos Apalai, Galibi Kalin’a, Galibi-Marworno, Karipuna, Palikur-Arukwayene, Tiriyó, Kaxuyana e Waiãpi.
O acervo foi organizado a partir de 100 relatos divulgados entre maio e agosto de 2020 pelo Programa de Educação Tutorial do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena (PET Indígena), da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Produzidos originalmente em português, os depoimentos foram traduzidos para os idiomas espanhol, francês e inglês. A coleção inclui as versões textuais publicadas no livro “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós” e capturas de tela dos relatos compartilhados na página do PET-Indígena da UNIFAP no Facebook, acompanhadas por traduções e fotografias dos participantes.
Os documentos registram as transformações ocorridas nos territórios durante a emergência sanitária, as dificuldades de acesso à assistência e à internet, o uso das redes sociais para produzir e compartilhar informações e as estratégias próprias de enfrentamento da pandemia. Também evidenciam o papel das mulheres, dos pajés e das medicinas tradicionais no cuidado e na proteção das comunidades.
A incorporação desses conteúdos ao Memorial assegura sua preservação digital de longo prazo e amplia o acesso a narrativas produzidas pelos próprios povos indígenas, reconhecendo-as como fontes de informação, memória coletiva e conhecimento sobre uma das maiores crises sanitárias deste século.
TMGL amplia a visibilidade da parteria tradicional nas Américas
A pauta internacional de 2026 encontra correspondência direta na página temática Parteria Tradicional nas Américas, disponível na Biblioteca Global de Medicinas Tradicionais da Organização Mundial da Saúde (WHO TMGL, na sigla em inglês), plataforma global da OMS desenvolvida com infraestrutura tecnológica da BIREME.
A página apresenta a parteria tradicional como um sistema vivo de conhecimentos, transmitido por meio das línguas, dos valores, da identidade e das formas de relacionamento com a vida e com os territórios. Também destaca os desafios para seu reconhecimento, para sua articulação efetiva com os sistemas de saúde e para a superação da discriminação enfrentada por quem exerce essa prática.
Os conteúdos estão organizados em quatro eixos – História e origens; Práticas e saberes; Testemunhos e vozes; e Diálogos de saberes – e incluem publicações, marcos normativos, materiais multimídia, revisões recentes de literatura, notícias, eventos, histórias e vídeos.
Ao reunir artigos, depoimentos, materiais educativos e recursos interativos, a página oferece um panorama diversificado e atualizado sobre a parteria indígena e afrodescendente na Região das Américas. Trata-se de um serviço que contribui para documentar e tornar visíveis esses conhecimentos, promover o diálogo intercultural e apoiar políticas e práticas de saúde que reconheçam o valor das parteiras tradicionais para a saúde materna e neonatal e para o bem-estar das comunidades.
Cooperação técnica para promover a saúde para todos
Em conjunto, as três iniciativas articulam diferentes dimensões da gestão da informação e do conhecimento: a BVS organiza fontes e recursos para apoiar a saúde indígena no Brasil; o Memorial Digital preserva experiências e vozes produzidas nos territórios; e a TMGL amplia a circulação regional e global de conhecimentos sobre práticas tradicionais de cuidado.
Esses recursos apoiam a pesquisa, a formação, a gestão, a formulação de políticas públicas e o desenvolvimento de formas de atenção culturalmente apropriadas, fundamentadas no respeito aos direitos, aos saberes e aos modos de vida dos povos indígenas. Ao desenvolver e articular essas soluções, a BIREME avança em sua missão de democratizar o acesso, a publicação e o uso da informação científica e técnica, transformando conhecimento em apoio a decisões e ações que promovem a saúde para todos.
Artigo originalmente publicado no Boletim BIREME nº 113. Assine para receber.
