4 de agosto de 2020 – O coordenador da Rede Global de Bancos de Leite Humano do Brasil, João Aprígio Guerra de Almeida, foi destaque no boletim de junho da Organização Mundial da Saúde (OMS) após vencer o prêmio Dr. Lee Jong-wook Memorial Prize for Public Health por seu trabalho na promoção do aleitamento materno no Brasil e no mundo. Confira abaixo a tradução da entrevista dele publicada no boletim da OMS:

joao aprigio boletim oms 2020

João Aprígio Guerra de Almeida fala com Andréia Azevedo Soares sobre as origens da rede de bancos de leite humano do Brasil e os aspectos psicossociais da amamentação.

João Aprígio Guerra de Almeida defende a mobilização social para promover o uso de leite materno doado para bebês que não podem ser amamentados diretamente por suas mães. Força motriz da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, ele também é o secretário executivo do Programa Ibero-Americano de Bancos de Leite Humano. Em reconhecimento ao seu trabalho, Guerra de Almeida recebeu o Prêmio Sasakawa de Saúde em 2001 e o Prêmio Dr. Lee Jong-wook Memorial de Saúde Pública em 2020. Ele é bacharel em engenharia de alimentos (1981) e mestre em microbiologia (1986) pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, Brasil e doutor em saúde da mulher e da criança pela Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, Brasil, em 1998.

P: Como você se interessou pelo tema da amamentação?
R: Começou com interesse em leite. Eu conheci o diretor de uma grande empresa de laticínios brasileira em um churrasco e estava conversando com ele sobre minha paixão pela química nuclear e ele tentou me convencer a mudar para a pesquisa sobre leite. Ele disse que o leite é esse produto maravilhoso; você pode fazer qualquer coisa com isso – de bolas de bilhar à cola para asas de avião. Isso despertou minha curiosidade e visitei a empresa dele onde discuti pesquisas sobre leite com um professor. Eu me formei em engenharia de alimentos na Universidade Federal de Viçosa e fiquei muito interessado em analisar a composição química do leite em diferentes mamíferos.

P: Como você passou disso para se concentrar nos seres humanos?
R: Um obstetra entrou em contato comigo enquanto eu estava na universidade. Ele trabalhava em uma área rural e tentava estabelecer bancos de leite humano para apoiar as mães que amamentavam. Mas ele estava tendo problemas para preservar o leite e perguntou se eu poderia ajudar. Então, visitei dois bancos de leite materno e fiquei chocado com a falta de controle de qualidade. Na verdade, escrevi uma carta ao Ministério da Saúde expressando minha preocupação e decidi reorientar minha pesquisa sobre a coleta e preservação seguras do leite materno.

P: E você recebeu uma resposta do ministério da saúde?
R: Sim. Até recebi um convite para me encontrar com alguns especialistas em amamentação no Rio de Janeiro. Lembro-me de ficar em silêncio até que começaram a falar sobre microbiologia e a propor soluções que não me pareciam corretas. Assim, compartilhei algumas das descobertas da pesquisa que estava lendo e eles acabaram me convidando para participar do programa nacional de promoção da amamentação como consultor.

P: Por que a amamentação é importante?
R: O consumo de leite humano é uma das intervenções mais econômicas que temos para apoiar a nutrição infantil. Foi demonstrado que não apenas promove o desenvolvimento cognitivo, mas também aumenta a resposta imune. Uma das melhores maneiras de garantir que os recém-nascidos obtenham o leite materno necessário é apoiar a lactação da mãe, mas quando isso não é suficiente, ou quando a mãe não pode amamentar, os bancos de leite humano podem desempenhar um papel vital de apoio.

P: Quando você começou a trabalhar em bancos de leite humano?
R: Quando cheguei à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio, em 1985, como pesquisador visitante. Fiz uma avaliação da qualidade no banco de leite da fundação e fui solicitado a ajudar a melhorá-lo. Acabei fazendo meu mestrado em técnicas de preservação de leite humano em Viçosa, ao mesmo tempo em que estava redesenhando o processo de preservação de leite, estabelecendo sistemas de controle de qualidade e treinando funcionários na Fiocruz. Defendi minha tese em 1986 e, para mostrar minha gratidão à equipe da Fiocruz, fiz a proposta de transformar o banco de leite humano em um centro de pesquisa de leite humano. Para minha surpresa, eles telefonaram e disseram que minha proposta havia sido aprovada e me convidaram para implementá-la. Naquele momento, mudei-me para o Rio com minha família e comecei a trabalhar na instalação do centro de pesquisa no Instituto Fernandes Figueira.

P: Quais desafios você enfrentou na criação do centro de pesquisa?
R: Um dos grandes desafios para mim foi considerar os aspectos psicossociais da amamentação. Meu foco naquela época era leite, leite, leite. Pareceu-me que não havia sentido em ter um laboratório de ponta para garantir a qualidade e a segurança do produto se eu não o tinha disponível. Então, obviamente, eu precisava de alguma maneira me aproximar das mulheres que poderiam doar. E por mais ridículo que possa parecer, a dimensão feminina era completamente nova para mim. Tive a sorte de conhecer a pesquisadora Maria Cecília de Souza Minayo, que me orientou sobre importantes fontes bibliográficas oriundas da sociologia da saúde, antropologia comparada e psicologia social. Essas fontes realmente mudaram meu pensamento.

P: De que maneira?
R: Eles me fizeram perceber que a questão do leite materno não pode ser reduzida à simples logística de produção e distribuição de leite. Percebi que a mulher não é simplesmente o meio de produção – ela é uma mãe que por acaso é mãe, que pode ou não ter escolhido a maternidade, pode ou não ter escolhido amamentar e que provavelmente tem muitas outras responsabilidades além da amamentação. Me dei conta até que ponto a biologia da produção de leite é influenciada por fatores ambientais.

P: Como isso mudou sua forma de pensar?
R: Tornou-se mais fácil para mim entender por que as mulheres respondem com mais ou menos sucesso ao papel em que são apresentadas. Vi também até que ponto as mães haviam sido marginalizadas no discurso paternalista que se desenvolveu em torno da amamentação. Isso remonta à primeira tese médica brasileira focada no tema, apresentada em 1838 e intitulada “A utilidade do aleitamento materno e os inconvenientes resultantes do desrespeito a esse dever”. Esse tema de “abandono do dever” encontra ecos em pesquisas subsequentes que vinculam o desmame à participação da força de trabalho.

P: Você pode falar mais sobre isso?
R: É sabido que as ‘epidemias’ do desmame no Brasil das décadas de 1970 e 1990 estavam associadas ao aumento da urbanização da população e à entrada de mulheres no mercado de trabalho (juntamente com o marketing agressivo de fórmulas infantis fabricadas industrialmente). No entanto, quando meus colegas e eu conduzimos uma pesquisa qualitativa de mulheres residentes em diferentes regiões do Brasil, para descobrir suas razões para o desmame, os principais motivos apontados foram “baixa oferta de leite” e “leite desidratado”. Não encontramos correlação entre desmame e participação no emprego formal. Isso sugere que não devemos ser tão rápidos em associar o emprego ao desmame.

P: Como sua pesquisa mudou sua abordagem para apoiar as mães que amamentam?
R: Como eu disse, quando comecei, minha principal preocupação era o leite, como obter quantidades suficientes de leite para apoiar as mães que amamentam. Depois de fazer a pesquisa, cheguei à conclusão de que, esse foco no leite como mercadoria e nas mulheres como produtoras, corria o risco de perpetuar algumas das tendências inúteis reveladas em minha leitura. Meus colegas e eu sentimos fortemente que não devemos permitir que nossos bancos de leite sejam transformados em laticínios humanos. Para nós, o protagonista da história da amamentação é a mulher e não o leite ou mesmo o filho. Nossa preocupação principal foi buscar a melhor forma de apoiar as mulheres para que elas amamentassem seus próprios filhos.

P: Como essa mudança de abordagem é expressada na maneira como seus centros são organizados?
R: A principal função das pessoas que trabalham nos centros de apoio é se relacionar com as mulheres, ouvir sem julgamento, para que as mulheres possam contar suas próprias histórias e criar confiança. É quando essa confiança é criada que o aconselhamento médico sobre todos os problemas que podem ocorrer durante a amamentação e como amamentar de acordo com as diretrizes da OMS pode ser realizado com mais eficácia. Acima de tudo, é só depois de estabelecer um vínculo com as mulheres que pensamos em coletar, testar, pasteurizar e distribuir leite. A ideia é construir uma grande comunidade de amamentação, que gera as doações de leite, que podem ser usadas para ajudar as mães quando necessário.

P: Coletar, testar, pasteurizar e distribuir leite são funções importantes?
R: Com certeza, e temos muito orgulho de nossa capacidade de desempenhar essas funções de maneira custo-efetiva. Mas enfatizo a importância de apoiar as mães porque elas são facilmente esquecidas. E isso inclui ir além dos muros de nossas instalações para apoiar as mulheres da comunidade. Para que a mãe que liga para a nossa linha de ajuda gratuita às três horas da manhã, uma mãe cujo bebê está chorando e que pode estar totalmente estressada por causa do narcotráfico e dos disparos que estão acontecendo fora de seu apartamento, pode encontrar uma pessoa qualificada para ouvi-la. Ter essa possibilidade muda a experiência da mãe. Ela não está mais sozinha com seu filho. Ela é apoiada.

P: Hoje, a rede de leite humano do Brasil é constituída de 224 bancos de leite humano e 215 centros de coleta. Qual foi o impacto da iniciativa no aleitamento materno no Brasil?
R: Foi creditado um aumento substancial na amamentação e uma queda na mortalidade infantil. Por exemplo, a prevalência do aleitamento materno exclusivo em crianças com menos de seis meses de idade aumentou de 4,7% em 1986 para 37,1% em 2006. No entanto, desde então se estabilizou e é necessário fazer mais para manter as tendências positivas. Também é importante reconhecer que a iniciativa é uma das várias, incluindo o Programa Nacional de Aleitamento Materno, criado em 1981, que introduziu a regulamentação da comercialização de alimentos infantis, a implementação da política de Hospitais Amigo da Criança, a implementação da Estratégia de Amamentação Brasileira e Alimentação Complementar e, mais recentemente, esforços para apoiar as mulheres trabalhadoras que amamentam.

P: Você apoiou ativamente iniciativas similares de leite humano em outros países. O que o levou a essa iniciativa?
R: O Prêmio Sasakawa de Saúde em 2001 aumentou a visibilidade do nosso trabalho e levou a pedidos de cooperação técnica internacional. Em 2005, decidimos organizar essa cooperação e começamos a trabalhar com outros países da América Latina, que não tinham bancos de leite humano na época. Os poucos que existiam haviam sido fechados na década de 1980, inclusive na América Central, devido a preocupações com a transmissão do HIV pelo leite materno. Agora, trabalhamos juntos não apenas com países da América do Sul e Central, mas também com Portugal e Espanha e países africanos de língua portuguesa.

P: Como a abordagem se adapta a diferentes configurações?
R: Foi implementado em uma variedade de cenários sem problemas, principalmente porque já havíamos adaptado o modelo para atender às diferentes condições encontradas no Brasil. Além disso, é importante observar que não reproduzimos ou transferimos o modelo de banco de leite humano; pelo contrário, transmitimos os princípios subjacentes ao nosso modelo e, no cerne desses princípios, está a importância vital de apoiar a mãe.